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Qual a diferença entre vinho fino e vinho de mesa?

Pela lei brasileira, fino e de mesa se separam pela uva, não pelo álcool, e a fama de que o fino é melhor vem de um texto da lei que mudou em 2004.

TL;DR

  • Pela Lei 7.678, a lei brasileira do vinho, o que separa o vinho fino do vinho de mesa é a uva. O fino só pode ser feito de Vitis vinifera, a espécie europeia; o de mesa pode ser de uva europeia ou de uvas americanas e híbridas.
  • O álcool não separa os dois. Fino e de mesa vão de 8,6% a 14% vol., e números como 10% a 13% ou 7% a 14% vêm da lei de 1988 ou pertencem a outras classes, como o frisante.
  • A lei exige que o fino seja bem elaborado, mas não dá nota ao que está na taça. A ideia de que o fino é superior vem da redação de 1988, que chamava os vinhos de uvas americanas de "comuns".
  • O vinho brasileiro de vinífera que passa de 14% e chega a até 16% vol. não é fino nem de mesa. É "vinho nobre", uma classe criada pelo Ministério da Agricultura.
  • A regra vale para o vinho feito no Brasil. O importado precisa seguir o mesmo padrão, com exceção para o vinho típico do país de origem.

Qual a diferença entre vinho fino e vinho de mesa?

A diferença está na uva, e não no teor de álcool. Pela Lei 7.678, de 1988, que define as classes do vinho elaborado no Brasil, o vinho fino é feito "exclusivamente" de Vitis vinifera, a espécie europeia de videira, que a lei chama de grupo "Nobres". A lei também exige do fino "processos tecnológicos adequados" que otimizem as características sensoriais, ou seja, o que se percebe pela cor, pelo aroma e pelo sabor. O vinho de mesa tem duas versões. O de viníferas usa só uva europeia. O de americanas usa uvas americanas ou híbridas e pode levar vinho de vinífera na mistura. No álcool, os dois são iguais: de 8,6% a 14% vol. a 20 °C. O importado também deve atender ao padrão do vinho nacional, mas o Decreto 12.709, de 2025, abre exceção para o vinho típico e regional do país de origem.

Vinho fino é melhor que vinho de mesa?

Não necessariamente, porque a lei não mede se o vinho é bom. Ela separa pela espécie da uva e pede do fino um cuidado de elaboração descrito numa frase genérica, "processos tecnológicos adequados que assegurem a otimização de suas características sensoriais". Que processos são esses, a lei não diz. Também não dá nota nem fala de preço. Um vinho de mesa de viníferas e um vinho fino podem sair da mesma uva, e no papel o que muda entre eles é essa exigência de processo. Uma reportagem da Bloomberg Línea de 2025 resume o termo como algo que "não se refere à qualidade, mas, sim, ao tipo de uva e ao processo produtivo". Na gôndola, então, a palavra "fino" conta de que espécie veio a uva. Se o vinho vai agradar, o rótulo não responde. Depende da uva, do estilo e de quem bebe.

De onde vem a fama de que o fino é melhor?

A fama vem da própria lei, na versão original. O texto de 1988 da Lei 7.678 chamava de "vinhos finos ou nobres" os de Vitis vinifera "que apresentam um completo e harmônico conjunto de qualidades organolépticas próprias", isto é, de qualidades percebidas pelos sentidos. Na mesma lista apareciam os "vinhos comuns ou de consumo corrente", aqueles "nos quais predominam características de variedades híbridas e/ou americanas". O fino era definido pela qualidade, e o vinho de uva americana levava o rótulo de comum. A Lei 10.970, de 2004 reescreveu o artigo. O fino passou a ser definido pela uva e pelo processo, e fino e de mesa ganharam a mesma faixa de álcool, que vale até hoje. O preconceito teve base no papel. O papel mudou há mais de vinte anos; a fama ficou.

Por que se veem outras faixas de álcool por aí?

Porque a lei do vinho tem vários números, e alguns são de outra época ou de outra classe. O mais antigo é o de 10 a 13 graus para o vinho de mesa, que estava no texto de 1988 e saiu em 2004, mas ainda aparece em material velho. O grau da época, o Gay-Lussac (°GL), equivale ao % vol. de hoje, pela conversão de um para um a 20 °C que a Lei 10.970 determinou. Outro número que circula é o de 7% a 14%, atribuído ao fino em sites e lojas. Pela lei atual, essa faixa pertence ao frisante e ao gaseificado, duas classes de vinho com gás. A mesma lei ainda dá 7% a 8,5% ao vinho leve e 10% a 13% ao espumante. Quem lê um desses números ao lado da palavra "fino" está olhando a linha errada da tabela.

Vinho nacional com mais de 14% é fino?

Não. Um vinho brasileiro feito só de uva europeia, com 14,1% a 16% vol., é "vinho nobre", classe criada pela Instrução Normativa 14/2018 do Ministério da Agricultura (MAPA), no art. 34, e mantida na Portaria MAPA 723, de 2024. Para chegar a esse teor, o vinho nobre não pode ter o açúcar do mosto corrigido. Mosto é o suco da uva antes de fermentar, e a correção do açúcar é uma das formas de subir o álcool do vinho. O nome confunde. A mesma IN diz que todas as Vitis vinifera pertencem ao grupo "Nobres", mas o vinho nobre é outra coisa, uma classe definida pelo teor alcoólico. Um tinto nacional de uva europeia com 14,5%, portanto, não descumpre a lei. Ele só mudou de classe.

Vinho de mesa é sempre doce?

Não. O açúcar é outra classificação, separada pela Lei 7.678 em seco, meio seco, suave e doce, e ela não depende de o vinho ser fino ou de mesa. Existe vinho de mesa seco e vinho fino suave. Os limites de açúcar de cada classe, em g/l, ficavam no Decreto 8.198, de 2014, revogado pelo Decreto 12.709 em novembro de 2025. Desde então, segundo a Nota Técnica 1/2026 do MAPA, há uma "lacuna regulatória", e o ministério prepara uma portaria para repor as regras anteriores. Enquanto isso, seco, meio seco e suave seguem dizendo quanto açúcar o vinho tem, sem relação com a uva ser europeia ou americana.

E o vinho importado, é fino ou de mesa?

Fino e de mesa são classes da lei brasileira, pensadas para o vinho feito aqui, e o rótulo de um importado segue o país de origem e pode nem usar essas palavras. O padrão de qualidade, porém, vale para toda garrafa vendida no Brasil. O art. 162 do Decreto 12.709, de 2025 manda o importado atender ao padrão de identidade e qualidade do produto nacional. O que não atende só pode ser vendido se for típico, regional e peculiar do país exportador, seguir a lei de lá, ter consumo normal e corrente, com nome e composição consagrados, e vir envasado na origem para o consumidor final. É por essa porta que entra um importado com álcool fora da faixa brasileira. O art. 109 do mesmo decreto exige as informações obrigatórias em português, no rótulo original ou num rótulo complementar.

Perguntas frequentes

Vinho de mesa é feito de suco de uva?

Não. A Lei 7.678 exige, para qualquer vinho, a fermentação alcoólica do mosto de uva sã, fresca e madura. A palavra vinho é reservada a essa bebida, seja ela fina ou de mesa.

Vinho de mesa pode ser feito com uva europeia?

Pode. A lei prevê o vinho de mesa de viníferas, feito só de Vitis vinifera, a mesma espécie de uva do vinho fino.

O rótulo do vinho fino pode dizer "de mesa"?

Pode. A Lei 7.678 permite que o vinho fino use também a expressão "de mesa" no rótulo.

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